Doença Invisível

17:44

“O cancro do século XXI” ou “O mal do século” estas são as descrições para a depressão assim que escrevemos a palavra no google. A doença pode não se ver mas precisa de ser discutida. É urgente falar da depressão. Por Rui Cunha




Em traços muito gerais: A depressão pode afetar pessoas de todas as idades, de qualquer classe social, não escolhe o país, o sexo nem “a altura certa”. Provoca angústia, tristeza e desespero. Tem impacto na capacidade funcional do ser humano, afeta até as tarefas diárias mais simples. Tem consequências, que podem ser devastadoras para o relacionamento com a família e amigos. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio, esta doença é a segunda causa de morte entre os 15 e os 29 anos.

O número é assustador mas é real, cerca de 300 milhões de pessoas no mundo sofre de depressão, avançam os estudos realizados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas a depressão pode ser tratada? Sim, pode, mas é preciso que os países invistam mais na saúde mental e em tratamentos para as mesmas. O site da OMS avança com a informação de que cerca de 50% das pessoas com depressão não recebe assistência médica. Só 3% do orçamento para a saúde é direcionado para as doenças mentais. É urgente falar do assunto. E para isso mesmo no passo dia 7 de abril, Dia Mundial da Saúde a OMS promoveu a Depression: Let’s Talk, a iniciativa que quer promover o diálogo sobre a depressão e ao mesmo tempo reduzir o estigma que está associado a ela, discriminar alguém porque sofre de problemas mentais parece irreal mas acontece. A Diretora Geral da Organização Mundial da Saúde, já se pronunciou sobre a situação atual: “Estes estudos são uma wake-up call para todos os países. É hora de repensar a maneira como lidam com doenças mentais. Está na hora de começar a tratar esta doença com a urgência que ela merece.”, avança a Dra. Margaret Chan.

Um dos primeiro passos é perceber os problemas que estão associados a esta patologia como o preconceito e a discriminação. “O estigma associado às doenças mentais foi a razão pela qual decidimos chamar a campanha de Depression: Let’s Talk.” Avança o Dr. Shekhar Saxena, Diretor do Departamento das Doenças Mentais e do Abuso na OMS, “para alguém que vive com depressão, falar com alguém que confia é um bom começo para o tratamento e recuperação.”

Os anos 90 não foram só os anos do grunge ou das supermodelos, foram o expoente máximo do ‘embelezamento’ da depressão. Livros, filmes e músicas são a fonte mais próxima de chegar aos autores que contaram as suas histórias e que através desses mecanismos passaram a ideia de sofrer de depressão era uma ‘cena fixe’, era ter personalidade. Prozac Nation, um memoir de Elizabeth Wurtzel conta como foi o primeiro ano da autora na Universidade de Harvard. Por outro lado, Susanna Kaysen, autora do livro Girl, Interrupted, conta a sua história como aspirante a escrita internada num hospital psiquiátrico nos anos 60 nos EUA. Estes dois exemplos depressa se tornaram em obras de culto, ganhando adaptações para o cinema. O expoente máximo da romantização dos problemas mentais. É preciso ter atenção quando se retratam este tipo de situações. Dúvido que em qualquer ala psiquiátrica se possa andar a correr pelos corredores a meio da noite, o ambiente não é assim tão divertido. O sons que chegam até nós (através do cinema) na vida real são bem diferentes.

As estatísticas apontam que 1 em 6 norte-americanos tomam antidepressivos ou outro tipo de medicamentos para combater a depressão, no Reino Unido os números têm aumentado para o dobro na última década. Quanto à situação nacional esta não fica atrás, Portugal é o país europeu com a taxa mais elevada de depressão e o segundo a nível internacional.
Robert Whitaker é um escritor e jornalista que tem dedicado boa parte da sua carreira à investigação no campo das doenças mentais. Já escreveu uma série de artigos para o jornal Boston Globe – finalista do prémio Pulitzer de Serviço Público. Para o norte-americano a situação atual da prescrição de antidepressivos, ansiolíticos, hipnóticos e sedativos está fora do controlo. Whitaker defende que as doenças mentais não se devem às alterações químicas do cérebro. Para ele tudo começou com apenas duas perguntas: 1) Como é possível que os pacientes de esquizofrenia evoluam melhor em países onde são menos medicados?  2) Como se explica que a evolução de pacientes com esquizofrenia tenha piorado com a implantação e medicamentos, em relação aos anos 70? Perguntas que nos fazem pensar.

Esta onda de prescrição de medicamentos começou essencialmente nos anos 80 como adianta Robert, em entrevista ao El País: “Na década de oitenta, foi promovida a ideia de que se uma pessoa estava deprimida, não era pelo contexto em que se insere, mas sim porque tinha um distúrbio mental – era uma questão química e havia um remédio que o faria sentir melhor. O que se promoveu nos EUA, na realidade, foi uma nova forma de viver, que foi exportada para o resto do mundo. A nova filosofia era: é preciso estar feliz o tempo todo e, se assim não for, nós temos um comprimido.” Parece um discurso radicalista mas a verdade é que essa é a ideia que chega ao comum mortal.

As celebridades como Selena Gomez, Cara Delevigne, Halle Berry ou Demi Lovato têm contado as suas histórias sem receio, relembram que elas também sofrem ou sofreram de transtornos psicológicos. Elas são um bom começo para o diálogo destas patologias. Usam as suas plataformas que chegam, através de um clique, a milhares e milhares de pessoas.
E se deixássemos os medicamentos para tratar certos tipos de doenças mentais. Numa conversa com uma grande amiga discutimos essa mesma questão. Ela afirmou que as terapias alternativas são uma boa solução para para algumas doenças mentais. Mas a verdade é que não sabemos como cada doente se sente. Há quem diga que é como ouvir uma música triste o dia todo ou então correr em corredores sem fim.

Todos os filmes, todas as músicas, todos os livros já nos deviam ter ensinado tudo sobre a depressão. O que fazer. O que não fazer. Como reagir. Como prevenir. Mas a verdade é que parece que nos passa ao lado. Este é o tipo de coisas que dizemos ‘só acontece aos outros’. Mas erramos ao fazê-lo, pode nos acontecer. E se isso acontecer todas as histórias que já ouvimos vão bater certo. Aparentemente não são visíveis mas só não vê quem não quer.

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